
Fundação do Clube
| O Clube Militar
de Macau (CMM) foi fundado em 20 de Abril de 1870 com o nome de Grémio Militar.
"Aos vinte dias do mês de
Abril de 1870, na sala dos oficiais do Quartel do Batalhão de Infantaria, reunidos os
oficiais ao serviço do referido Batalhão, propôs o Alferes Dores organizar-se um
Grémio não só para ponto de reunião, como, mui principalmente, para nele se
estabelecer uma biblioteca de livros militares, científicos e de qualquer outro assunto,
havendo também jornais, jôgo de armas e de todos os permitidos por lei.
Recolhidos os votos, foram eleitos: presidente, o capitão Manuel de Azevedo Coutinho, vogais, o tenente Henrique Augusto Dias de Carvalho e o Alferes Rafael das Dores, sendo este o secretário. Nomeada a comissão, ficou logo convencionado que podiam ser sócios do Grémio todos os oficiais do exercito, marinha, reformados e aspirantes. Em seguida o presidente deu a mesa por dissolvida e encarregou a comissão de fazer convidar para sócios todos os oficiais nas circunstâncias acima, sendo estes os fundadores, os quais avisariam para as sessões em que forem presentes os estatutos, e assim terminou esta reunião do dia 20 de Abril de 1870. Ass) - Domingos José d' Almeida Barbosa - tenente-coronel." |
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| Os primeiros estatutos do Grémio Militar foram aprovados pelo
Governo a 24 de Janeiro de 1871 e publicados a 31 do mesmo mês no "Boletim de Macau
e Timor" ano 1871, Vol. n.° 5 - 30-1-1871. No início admitia apenas como sócios os oficiais militares. No entanto, cedo se abriu à sociedade civil passando a admitir também como sócios os funcionários superiores da Administração. O Grémio Militar organizou uma biblioteca riquíssima em que existiam as primeiras edições de obras de Camilo, Eça, Antero, Ramalho, Junqueiro, Enes, e tantos outros. Pelo Grémio passaram conferencistas de prestígio - José Maria Teixeira de Guimarães e Cardeal D. José da Costa Nunes - poetas consagrados - Camilo Pessanha - e jornalistas de mérito - Silva Mendes. E foram organizados muitos saraus, bailes e concertos... |
As instituições, como as
pessoas, têm na sua existência altos e baixos. No caso do CMM esses anos foram os de
1941 a 1951. De facto, durante a Guerra do Pacífico (1941-1945) o edifício da sede do Grémio Militar foi requisitada pelo Governo para albergar refugiados de Hong Kong. O rico mobiliário e biblioteca foram guardados no armazém das Obras Públicas no Bairro 28 de Maio. No entanto, o longo período da Guerra, a rotação do pessoal militar, fizeram arrefecer o espírito associativo e, que o mobiliário, quer a biblioteca se perderam por completo. E, no fim da Guerra, o Governo instalou na sede do Grémio a Repartição da Fazenda. Construído e inaugurado o Palácio das Repartições, o edifício do velho Grémio foi devolvido aos sócios em 1951. |
RESTAURAÇÃO
Em 1951 renasceu o espírito o Grémio. E, por Portaria Provincial de 29 de Outubro desse ano, o Governo nomeou uma comissão para restaurar e repor em funcionamento o Grémio. Esta comissão era composta pelo Major Cabreira Henriques, Tenente Alexandrino José Marques Pinheiro, da Administração Militar, e Tenente Manuel Nunes Vieira.
A título de indemnização pelo tempo de ocupação, o Governo pagou ao Grémio $31,920.00 patacas, e entregou-lhe dois donativos, de $15,000.00 e $1,500.00 patacas. Foi com esse dinheiro que a comissão procedeu à reinstalação do Grémio retomando o seu notável percurso histórico.
O GRÉMIO MUDA DE NOME
Em 1951 os grémios eram, por força da lei, entidades oficializadas. Por isso, a instituição é forçada a adoptar um nome que se adaptasse à sua natureza de instituição particular. A designação escolhida foi "CLUBE MILITAR DE MACAU".
As instalações, devidamente recuperadas, foram reinauguradas em 30 de Junho de 1952, pelo então Ministro do Ultramar, Comandante Manuel Maria Sarmento Rodrigues e esposa que se encontravam de visita a Macau.
"O Ministro do Ultramar e a esposa, acompanhados pelo Governador da Província, Contra-Almirante Joaquim Marques Esparteiro percorreram os salões do Clube onde se encontravam já os convidados para aquela festa, funcionários superiores, civis e militares, e muitas senhoras portuguesas e chinesas.
Aos brindes, usou da palavra o Presidente da Comissão Administrativa, Major Acácio Francisco Leão Cabreira Henriques que resumiu, assim, o passado do Clube:
"Está hoje de parabéns o nosso Clube. Passados 11 anos em que suspendeu a sua actividade, volta hoje a reabrir as suas portas e com dupla satisfação:
Pelo facto em si e por a Providência nos haver proporcionado a honra da presença neste acto, da prestigiosa figura do Ilustre Ministro do Ultramar, Exmº. Comandante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, lídimo representante do governo da Nação, que numa viagem patriótica e triunfal às Províncias do Oriente, veio trazer o abraço fraterno e o conforto moral a todos os que labutam nestas longínquas parcelas de Terra bem Portuguesa.
Foi esta Agremiação fundada em 1870, por um grupo de Oficiais, por iniciativa do Alferes Rafael das Dores, que constituiu uma direcção de que foi seu Presidente o Capitão Manuel de Azevedo Coutinho, conforme se verifica da respectiva acta da fundação, e que levou a efeito a construção deste edifício onde se instalou e que é propriedade sua.
Serviu sempre como centro recreativo dos Oficiais e de suas famílias, e ainda recebendo a melhor colaboração de elementos da classe civil, pois, se bem que o Clube Militar seja a sua denominação, no entanto podem a ela pertencer também civis.
As dificuldades provenientes da última guerra, levaram o Governo a utilizar este edifício como alojamento de refugiados, e posteriormente, em 1945, a instalar a Repartição de Fazenda do Concelho.
Encontramo-nos, porém, hoje, numa época de grande transformação e de notáveis progressos nesta Província Ultramarina, e que proporcionou podermos novamente dispor de nossa Sede.
Isto levou-nos a considerar uma série de factores para poder pôr o edifício em condições dignas da função que a esta colectividade compete desempenhar na vida social de Macau.
Eis, porque o assunto foi exposto ao alto critério de Sua Exª. o Governador, Comandante Joaquim Marques Esparteiro, que não só na sua qualidade de Chefe Supremo da Província, mas também, nunca esquecendo, ser igualmente militar, logo de início abraçou com carinho a ideia de reabertura deste Clube, acordando pois, em propor a V.Exª., Senhor Ministro, o pagamento de uma estipulada renda pelos anos que este edifício esteve ocupado.
OS TEMPOS MODERNOS
O protagonismo do Grémio Militar na vida intelectual e lúdica do enclave foi-se esbatendo, progressivamente, a partir da segunda metade deste século, em parte por falta de iniciativa, de verbas ou de tempo (ou as três juntas) dos seus sócios e direcções, mas também com o advento e revitalização de outras associações culturais, mormente as que gravitavam em torno do Teatro D. Pedro V.
Depois da Guerra do Pacífico, há a registar a visita do Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, em 1952, que inaugurou oficialmente o recém-designado Clube Militar.
O momento, em si, não se revestiu de grande interesse. O relevo da ocasião resultava tão só da importância política do ilustre visitante, o único alto responsável do Estado Novo que até então visitara a remota província do Oriente. Deferência pela qual o Clube Militar ficaria eternamente reconhecido como ressalta das palavras do major Acácio Cabreira Henriques, presidente da Comissão Administrativa, ao tempo:
"Pelo facto em si e por a Providência nos haver proporcionado a honra da presença neste acto, da prestigiosa figura do Ilustre Ministro do Ultramar, Exmº. Comandante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, lídio representante do governo da Nação, que numa viagem patriótica e triunfal às províncias do Oriente, veio trazer o abraço fraterno e o conforto moral a todos os que labutam nestas longínquas parcelas de Terra bem Portuguesa".
Em 1970, por ocasião do seu centenário - e à semelhança do que acontecera no Jubileu de Ouro -, o Clube não assinala a efeméride no próprio dia. Fá-lo a 13 de Agosto, cerca de quatro meses depois de a instituição ter cumprido 100 anos de existência.
As comemorações constaram de uma missa na Sé Catedral, celebrada pelo bispo D. José Tavares, em sufrágio dos sócios já falecidos.
À noite, o governador Nobre de Carvalho e esposa, juntamente com as demais individualidades da província, participaram numa sessão solene em que o Clube foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique, tendo Henrique de Senna Fernandes proferido uma palestra sobre a história da instituição.
Encerrada a sessão, após breves palavras de Nobre de Carvalho - e segundo relato de O Clarim -, "o presidente da direcção convidou os assistentes a deslocarem-se para o jardim anexo à sede do clube para se 'renovar uma daquelas soirées' de que Macau era fértil nos tempos antigos".

OS ÚLTIMOS ANOS: À REVITALIZAÇÃO
As décadas de 1980 e de 1990 marcam duas fases distintas na vida da prestigiada agremiação, condecorada, em 1993, com a Medalha de Mérito Cultural, pelo Governador de Macau.
Nos anos 80, o Clube Militar mergulha nalgum torpor só a espaços sacudido por iniciativas esporádicas que, invariavelmente, esbarram no quase alheamento dos seus associados - uma realidade mais evidente na segunda metade da década passada.
A situação financeira do Clube não era, então, famosa, e os anos passavam com as sucessivas direcções declarando a sua impotência para alterar o estado de coisas:
"Os Corpos Gerentes do Clube Militar de Macau gostariam de apresentar aos sócios um outro 'Relatório e Contas', em que transparecesse uma vida e dinâmica do Clube muito maiores. Tal não é possível e, por esse facto, apenas apresentamos a simples e humilde realidade."
Estas linhas, constantes do "Relatório e Contas" de 1987, foram repetidas, praticamente sem alterar uma vírgula, nos considerandos finais dos relatórios dos dois anos seguintes.
As dificuldades financeiras (que atingiram o ponto mais crítico em 1988) reduziram a vida do Clube quase só às suas actividades pendulares, com destaque para as secções de bridge e de ténis, está última uma secção com pergaminhos na instituição. Em 1915 - segundo notícias veiculadas em O Progresso -, a secção especial de ténis passava a admitir "como sócios (...), não só os cavalheiros que não sejam sócios do Grémio, mas também as senhoras que desejam inscrever-se" - uma verdadeira "modernidade", ao tempo. Ainda não existiam, no entanto, os actuais campos de ténis na Avenida da República. Estes seriam inaugurados pelo então Ténis Militar Naval, em 1932, tendo passado para as mãos do Clube Militar, em 1963, por portaria do Governo.
A secção de ténis, tal como a de bridge, nunca deixou de organizar os seus torneios e competições, mormente com organismos congéneres de Hong Kong e de Cantão.
Mas além disso, iniciativas como excursões à ilha da Lapa e a Sanchoão, a Pequim e a Kuai Lam, um ou outro arraial de Stº. António ou baile de Carnaval, e festas de fim de ano e de aniversário do Clube, organizados de 1987 a 1989, não chegavam para esconder a falta de dinamismo da agremiação, dando apenas uma pálida imagem do seu rico historial.
Outra vertente em que o Clube, no passado, se distinguira - a organização de conferência e palestras - manteve-se também com carácter esporádico. Destaque-se a "lição" sobre o historial do Clube Militar pelo advogado Henrique de Senna Fernandes, um dos sócios mais antigos, em 1983 (editada em opúsculo comemorativo do 113º. aniversário da instituição), e uma conferência sobre a vida de Camilo Pessanha, pela historiadora Celina Veiga de Oliveira, em 1986. Já em 1989, o salão de conferências escutou o almirante Leal Vilarinho, a falar sobre "A importância actual dos Descobrimentos Portugueses", no âmbito de um sarau cultural em que actuou o Quarteto de Cordas Camões, do maestro Simão Barreto, reeditando-se, por uma vez, uma tradição que fez história no Clube Militar.
A sede - o restaurante, o bar, o salão de bilhar e a sala de leitura -, entretanto, nunca deixou de ser um ponto de encontro quotidiano da comunidade portuguesa neste rincão de terra china, pese embora "o alheamento da massa associativa", segundo se afirma no relatório da direcção, de 1990, que cita, a título de exemplo, o facto de apenas 20 pessoas terem comparecido a uma "tarde cultural" promovida nesse ano ...
Para isto, reconhece a mesma Direcção, contribuía o "vazio de comunicação entre os sócios e o Clube Militar", que, por essa altura, congregava menos de 500 associados.
Eram, afinal, dois problemas que as futuras direcções teriam de solucionar: por um lado, restabelecer a comunicação com os sócios, por outro, atrair novos membros.
Os anos seguintes marcariam o ponto de viragem. Entre 1991 e 1993, inscrevem-se no Clube mais de 400 pessoas. Procede-se também à informatização do ficheiro de sócios na tentativa de criar uma comunicação mais fluente com os associados e um sistema mais eficaz de cobrança de quotas.
Melhorias que, a par do grande crescimento no capítulo de donativos, tiveram reflexos imediatos nas finanças do Clube: a instituição chega ao final de 1993 com uma situação de confortável liquidez financeira.
Naturalmente, estes são os anos em que se revitalizam as actividades tradicionais e se fomentam novas formas de mobilizar os associados, chamando também a atenção da comunidade em geral.
Sucesso assinalável conheceu o projecto cultural "Vamos Descobrir Macau", coordenado pelos historiadores Jorge Cavalheiro, Celina Veiga de Oliveira e Beatriz Basto da Silva. Em 92 e 93, realizaram-se onze passeios histórico-culturais, "guiados" pelos referidos historiadores, com uma participação média de mais de 50 sócios por sessão. De uma forma descontraída, percorrendo a cidade e as ilhas, os associados puderam ter um contacto mais concreto com a História e as realidades deste enclave fundado pelos portugueses de Quinhentos.
Durante este período, o Clube Militar inscreveu também no seu historial mais algumas soirées memoráveis.
Rui Veloso foi a estrela da noite de Stº. António, em 1992, e Carlos do Carmo, o grande fadista português, encantou os cerca de 200 convivas reunidos no Clube para a festa do "santo casamenteiro", no ano seguinte. As noites de fado seriam, aliás, uma vertente acarinhada pela direcção e pelos salões do Clube Militar já passaram outros nomes sonantes como António Pinto Basto, Luz Sá da Bandeira e Mísia.

Além da revitalização da vida social e cultural do vetusto grémio, as maiores apostas da direcção, nos últimos dois anos, foram feitas com vista a assegurar o futuro da instituição.
Entre elas, ganham realce o projecto de renovação arquitectónica do edifício-sede (de que se dá conta noutro capítulo deste livro) e a revisão dos estatutos, "ajustando o seu articulado, nalguns aspectos desfasado da realidade actual, por forma a garantir a sobrevivência e fortalecimento para além de 1999".
Mal sabiam os três jovens oficiais portugueses, cujos destinos se cruzaram em Macau nas últimas décadas do século passado, que a sua ideia venceria o tempo e, muito provavelmente, vencerá os ventos da História.
Sócios do Clube que mais contribuiram
para o projecto de renovação da Sede do Clube Militar de Macau
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Ma Man Kei |
Lau Leong Kei |
Leong Su Sam |
Sio Tak Hung |
Ng Lak Seng |
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